parque assombrado – o chefão das almas (tão penadas, coitadas), o grão – era grã: uma menininha duns cinco aninhos? vestidinho rosa cabelo cacheadinho arquinho.
o xamã me conta (ao pé do ouvido, num encontro fortuito num canto escondido do parque assombrado): a garotinha é de fato um monstro! – como pode? provoque a garotinha, e verá-lhe a monstruosidade; atire então estas tuas moedas
em sua bocarra aberta, disse apontando para minha pochete.
a garotinha caminhava pelos corredores da masmorra fantasma, e ali dei com ela, e enfrentei-a, e ela de fato abriu uma bocarra de mais de metro cheia de dentes tubarônicos e muita baba e seu hálito era pior que o do huck, cachorro da minha sogra. ali atirei as todas as minhas moedas e entre estes meus centavos de real,
atirei as três moedas chinesas de consultar o i ching.
vencido foi o demônio (novamente!), mas senti falta das minhas moedas. arranjarei outras.
Estou numa feira de rua e encontro a barraca de uma mulher que vende gibis, discos de vinil, brinquedos usados. Quero comprar uma revistinha, escolho uma que nunca havia visto antes.
Estou na casa da minha mãe. Quero vestir-me mas não encontro minhas roupas. Pego uma camiseta verde, mas é da minha mãe e começamos a brigar porque ela é muito possessiva com suas coisas. Ela não quer mesmo me deixar vestir a camisa e saio de casa, nervoso.
Atravesso a rua em direção a um telefone público para ligar para Raquel. Passo muito tempo e faço muito esforço paera conseguir digitar os números e tudo que consigo é escutar uma conversa entre Raquel e Clóvis. Clóvis a está tentando convencer a ir com ele para a França em março próximo, ela diz que vai ver se pode, não pode responder agora. Amana entra na conversa, fala comigo: “Não é 33, é banana-banana”. Acho que ela se refere ao número do telefone.
Desisto, desligo o telefone e decido visitar minha avó que mora ali por perto. Penso em telefonar de lá, o telefone funciona melhor.
Corro para lá, e quando chego, não consigo parar de correr, passo direto sem pode frear-me.
E, com o esforço, acordo.
Anotado em 17 de agosto 2007.
Estou numa festa na casa do Padrinho Nonato. Estou angustiado, procurando Raquel por todo canto. Penso o pior, procuro, procuro, ela me deixou, ai meu deus – e enfim a encontro dormindo calmamente num cantinho.
Encontro um velho livro sobre a Maçonaria. Leio-o e depois comento com o Padrinho sobre o livro que julgo pertencer a ele já que o achei em seu quarto. Ele não parece ser um maçom nem dá importância ao livro. Conto-lhe sobre meu avô que é mestre maçom mas ele não se empolga.
É manhã e a festa está no fim. Estou usando um doloroso aparelho de dente que me esforço por retirar.
Estou numa rua familiar e um telefone público toca. Atendo e é minha avó me convidando para uma comemoração do dia dos pais, ela me diz que já comprou os doces para o Exu e a Pomba-gira (justo minha avó que é crente!).
Ela põe alguém para falar comigo no telefone, é uma prima minha, Luciana (ela não existe na vida acordado). Conversamos, um papo meio cômico. Não me lembro das palavras, sei que ela fazia longas pausas, havia longos momentos de silêncio entre nós. Mas a conversa era amena e descontraída. Por fim seu silêncio foi muito longo e comecei a contar até cinco para desligar o telefone, mas quando eu disse “quatro” ela disse “quatro” também, e rimos. Ela era divertida e eu prometi ir à este dia dos pais para conhecê-la.
Desliguei o telefone e voltei a procurar por Raquel. Encontrei-a e ela disse que iria comigo.
Anotado em 13 de agosto 2007
Lá estava eu na biblioteca pública, esquecido funcionário empoeirado. Foi então que Caela Terra entrou, toda cigana, dizendo que veio buscar os pertences de seu “antigo amor”. Ela começou a arrastar todas as estantes, abrindo um espaço bem no meio da biblioteca. Ali, ela começou a cavar o chão, primeiro destruindo o mármore, com as mãos, então cavando, cavando… fui ajudá-la. Cavamos até encontrar uma arca.
Dentro da arca, há papéis, com desenhos e poemas. São os meus desenhos e poemas! “Estes são do homem que amei”, diz Caela, olhando pra mim sem me reconhecer. Eu sei que sou eu, mas ela fala como se fosse uma outra pessoa, alguém que morreu faz muito tempo. Estou tão emocionado ali, vendo aqueles desenhos!
Adaptado de um sonho que anotei em 23 de agosto de 2005.
Vou à casa de uma amiga de minha mãe, Cristina, que no sonho é uma senhora Judia. Estou com Douglas, um amigo, ambos mulambos, malarrumados – ainda assim somos convidados a entrar.
A casa é grande, rica. O tom rubro domina o ambiente, o rubro e o dourado, nos tapetes, cristais, madeira de lei, no candelabro de Israel. Ali está ela, Cristina, a dona da casa, uma senhora baixa, gorducha, risonha, parecendo mais jovem do que realmente é, em trajes masculinos, camisa pólo branca, calça jeans, tênis, e o quipá também branco. Eu e Douglão sentamo-nos no sofá da sala junto à minha mãe que já estava ali. Estamos a conversar quando a anfitriã pede licença e sai para apanhar alguma coisa.
Olhando para um canto da sala vejo uma estranha cena desenrolar-se: um homem vestido de padre (devia ser um rabino, mas era um padre) dando de comer a uma menina loira, dessas lindas moças judias, uma flor amarela. Ela recebe a flor como se fosse um sacramento, mastiga as pétalas, engole. Penso que esta seja uma cerimônia de iniciação. Penso que a moça, linda como um elfo, está na idade de se casar, e eu bem queria ser o seu prometido.
Cristina está de volta à sala, com um imponente livro de aparência antiga. Deposita-o na mesa e convida-me a folheá-lo. “Está tudo aí”, ela diz. É difícil ler em sonhos, requer um esforço extra de atenção. Passo as páginas do livro e ele apresenta caracteres estranhos, belos, alguns parecem-se com símbolos astrológicos ou alquímicos ou cabalísticos, mas não há letras em hebraico ou qualquer outro idioma que eu conheço. Mas sei que estou vendo o livro do mundo, o enigma e a resposta para todos os enigmas. Sinto enorme prazer em folheá-lo, apesar de que dele não extraio nenhum sentido ou saber consciente, apenas a sensação atroz de que está tudo ali, e me está sendo dado passar os olhos sobre este tudo.
Deve ser uma honra.
Estou esperando o ônibus. Sozinho, só eu. O ônibus vira a esquina, dou sinal. Lá dentro suspiro e sento. Sobe ladeira, desce ladeira, passam escadas, vielas, canteiros. Vem o ponto. Dou sinal. O ônibus pára. Desço.
Estou na rua. Caminho naquele tempo meio cinza, chuvoso, e vem uma garota em minha direção. É uma magia, é um sonho: Ela toma minha mão. Conhecemo-nos há quantos anos? Ela não parece uma menina, parece um planeta.
É tão bom estar ao lado de quem a gente ama! Então de repente o chão se abre e a menina afunda na lama, até que somente sua cabeça fica de fora. Um gigante vem e pisa sobre ela, afundando-a mais ainda.
Efusivamente meto as mãos no barro tentando tirar a menina de lá, cavo e puxo e então, depois de anos, ela sai, nos meus braços. Ela virou uma mulher adulta! Sua cara é toda lama, então limpo com as mãos e sopro em seu nariz para que ela respire. Ela tosse, abre os olhos.
Com a moça nos braços, saio a procura dum riacho.
Era um auditório, um ginásio, um salão de festas, um templo… alguma coisa assim. Havia filas de cadeiras para todos se sentarem, e todos estavam ali. Eu cheguei um pouco tarde, tive dificuldades para achar um lugar vago. Sentei-me. Havia música. Eu olhava em volta e só posso dizer esta frase vaga: estavam todo mundo ali. Era o que eu sentia, como um grande momento, como uma formatura, um fim de ano, uma reunião de família, uma iniciação, uma obrigação de sete anos de candomblé…
Quando prestei atenção vi que a música era trilha sonora de um vídeo, exibido num telão. Havia um senhor no palco, com um trumpete nas mãos, eu sentia que ele queria muito fazer um som mas não podia, tinha que esperar o vídeo terminar. Então aquilo tudo era falso, como aquelas cerimônias que ninguém gosta mas todo mundo tem que participar, como aquele rezar da escola em que não se acredita. Percebo que há outros músicos, toda uma banda, que queria tocar mas não pode.
Não há mais telhado e uma tempestade vai chegando, primeiro em forma de um vento úmido, depois o som das ondas batendo na praia, depois um alagamento súbito, a água a subir pelos pés pelas pernas. Todos levantam apressados, abandonando o lugar. Depois da tempestade, o que era um auditório eram ruínas e um chão de lodo.
Então a Madrinha Peregrina me telefona: “E aí, estás pronto para a Beleza?” Eu sei que tenho que responder “sim”, mas respondo: “Não sei, não estamos todos?”.
Ela desliga o telefone.
Anotado em 18 de Dezembro, um domingo, de 2005.
Um dia acordo e a casa está estranha. Saio da cama. Parece pouco antes das seis da manhã, começa a clarear, tudo é meio laranja e silêncio. Estou algo pesado, meio devagar. Vou até o banheiro e me olho no espelho. Eu me vejo todo vermelho, com olheiras escuras, suando, não conseguia abrir os olhos direito, sentia-me em febre. Passei as mãos no rosto, esfreguei os olhos.
Um rosto de repente surgiu do lado inferior esquerdo do espelho, uma cara sorridente entrou no retângulo do espelho, me olhando – era eu mesmo, mas tinha um aspecto claro, inocente, saudável, e ria para mim, um pouco irônico. Então eu apontei e gritei, é meu outro eu! Um outro eu!
E me dei conta de que estava sonhando.
Logo estou na cama, acordado desta vez (penso), me lembrando de tudo.
Anotado numa sexta, 3 de dezembro, 2004.
Estava numa feira de etnologia. Algo como um museu de culturas exóticas. Não havia mais ninguém lá, além de mim. E havia pseudomalocas à minha volta, havia penas e máscaras, mas tudo era meio fake. Então vi o fantasma de um velho pajé, fumando, apressado, lembrando o coelho da Alice, “oh dear, estou atrasado!”. Ele some no meio das barracas da feira.
Uma voz dentro da mente: “Vira”! Eu me viro e estou numa esquina, uma esquina qualquer de uma cidade. Nesta esquina há uma lata de lixo e ao lado dela um enorme saco preto, no chão. Eu penso que devo colocar o saco de lixo na lata. Eu agarro o saco, mas ele rasga e o corpo de um cachorro cai de dentro dele.
Olhei para o outro lado e subindo a rua vinha uma família de caboclos. Quando eles chegaram mais perto vi que tinham penas, como se houvessem peles de aves coladas às peles deles, do pai, da mãe, da filha e do filhinho menor; como se eles tivessem trocando de pele, como alguns bichos fazem, de pássaro para homem, as peles de ave estavam se soltando e caindo pelo chão, estavam rasgadas e rotas e as penas, oleosas; e seus olhares.
O menino me olha e eu sinto tanta tristeza que saio correndo, saio desembestado pelas ruas do bairro. Entro correndo por uma favela. Chego diante de um lavajato. Alguns homens estão trabalhando. Um negão elegante, todo vestido de branco, impecável, de colares, sai dali (de um lavajato?) e me repara, eu parado ofegante ali na rua. Eu chego até ele e deito a cabeça no seu ombro e choro.
Anotado em uma segunda-feira, 06 de dezembro de 2004.
sonhei que na maré cheia da lua nova de um céu negro denso furado de estrelas muito brilhosas eu caminhava na beira do mar, na companhia de um cão negro, que era meu guia – mas eu não era cego.
de novo sonhei com uma piscina, e um homem preto barrigudo que nela boiava feito uma ilha e um nenem que vinha correndo e pulava e afundava n’água e ia ficando mais novo mais novo até se tornar um feto.
minha gata é xamã, xamãezinha.
eu tive uma namorada, que entrou no banho, certa vez, e até hoje não saiu. eu ainda escuto o som da água caindo, sempre me lembro dela. nos falamos por telefone.
eu fico saindo e saindo de casa, e quando eu volto minhas coisas estão todas reviradas. eu também, nas minhas saídas, invado e fuço nas casas dos outros.
Escrito em 4.11.2008.